06 out 2017

Conheça as principais pragas controladas pela tecnologia Bt em soja, milho e algodão

A adoção das boas práticas agronômicas, como o refúgio, o monitoramento de pragas e a aplicação de inseticidas quando necessário, ajuda a evitar ou retardar a “quebra da resistência” em insetos das ordens Lepidóptera e Coleóptera em plantações de milho, soja e algodão Bt. Algumas espécies são capazes de causar danos às três culturas, como é o caso da lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), da lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) e de integrantes dos gêneros Helicoverpa e Spodoptera. Confira, abaixo, um raio-X das três principais pragas-alvo da biotecnologia no milho, soja e algodão Bt.

Milho

Larva e besouro de D. speciosa, conhecido como “vaquinha”. Foto: Paulo Lanzetta e Jovenil da Silva/Embrapa

1. Larva-alfinete (Diabrotica speciosa) – É a larva de um pequeno besouro conhecido popularmente como “vaquinha”, “patriota” ou “brasileirinho”, por conta de sua coloração verde-amarela. Os animais adultos se alimentam dos cabelos e das folhas do milho, enquanto as larvas comem as raízes. As plantas Bt expressam uma proteína tóxica às larvas do inseto e protegem a planta durante todo o seu desenvolvimento, desde a fase vegetativa até a maturação fisiológica dos grãos. O controle dessa praga no milho convencional (não Bt) é feito com o tratamento de sementes, mas tem eficácia limitada. Segundo o engenheiro agrônomo e consultor do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) José Magid Waquil, os métodos complementares de controle são difíceis de adotar, em decorrência da complexidade de aplicação de produtos no solo depois que a planta já está desenvolvida.

2. Lagarta-do-cartucho ou militar (Spodoptera frugiperda) – A espécie sofreu uma rápida evolução de resistência à proteína Cry1F, o que tem exigido um maior esforço dos produtores e da indústria, com um intenso monitoramento das lavouras e uso de estratégias de Manejo de Resistência de Insetos (MRI). Essas mariposas põem seus ovos nas folhas, e as lagartas recém-nascidas raspam as folhas e se dispersam para as plantas vizinhas. À medida que as pragas vão crescendo, deslocam-se para a região do cartucho do milho (base da folha antes da abertura), onde provocam os maiores danos. Também atacam as plantas nos estágios iniciais de desenvolvimento, causando um sintoma conhecido como “coração morto”, que deixa as folhas mais novas murchas ou secas, terminando por causar a morte da planta por inteiro. Podem atingir, ainda, as espigas na fase reprodutiva, ocasionando perdas diretas na produção e indiretas na qualidade dos grãos, por funcionar como uma porta de entrada para fungos produtores de toxinas.

3. Lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) – Afeta as espigas do milho, o que torna a tecnologia Bt de extrema importância, pois no cultivo convencional não há um método eficiente de controle das lagartas que têm preferência por essa parte da planta. Uma alternativa de controle biológico é utilizar uma vespa do gênero Trichogramma, mas atualmente não há disponibilidade para tratar toda a área cultivada no País, aponta Waquil. Essas lagartas põem seus ovos no “cabelo” do milho e, logo após a eclosão, os filhotes penetram na espiga e ficam protegidos de agentes externos até completar a fase de larva, quando então caem no solo e passa pelo estágio de pupa. A tecnologia Bt é eficaz contra outra lagarta do gênero Helicoverpa, a armigera, que virou um grave problema há três anos no Brasil e danifica as flores e os frutos das culturas convencionais de soja, milho e algodão.

Soja

Nessa cultura, as variedades Bt são altamente eficazes contra os insetos-alvo da tecnologia. Assim, as plantas ficam protegidas contra as principais espécies de pragas, com exceção de insetos sugadores (como percevejos e a mosca-branca) e outras espécies de menor importância que podem ocorrer ocasionalmente. As três principais pragas contra as quais as cultivares Bt agem na soja são:

Lagarta-falsa-medideira atinge várias culturas do País, como soja, algodão, feijão e tomate

1. Lagartas desfolhadoras – Consomem o limbo ou lâmina foliar (parte principal da folha), reduzindo a produção da planta. Esse grupo inclui a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e a falsa-medideira (Chrysodexis includens), cuja incidência nas variedades geneticamente modificadas resistentes a insetos (Bt) é praticamente nula. A preocupação de agricultores e empresas com essas espécies, porém, está na evolução de linhagens resistentes às proteínas Bt. Portanto, o uso de estratégias de MRI é um fator decisivo para a manutenção da biotecnologia no campo.

2. Lagartas das vagens – Atacam as folhas novas, no início do desenvolvimento, e preferem se alimentar de botões florais, flores e vagens da soja, prejudicando diretamente a produtividade das plantas. Nesse grupo, estão espécies dos gêneros Helicoverpa e Heliothis. São insetos cujo controle é bem mais complexo que o das lagartas-desfolhadoras, por exemplo, já que, ao penetrar nas vagens, esses animais ficam protegidos e escondidos. Nesse caso, a tecnologia Bt torna-se ainda mais importante, pela dificuldade de controle dos métodos convencionais.

3. Broca-dos-ponteiros ou das-axilas (Epinotia aporema) – Entra na haste da planta, cavando túneis principalmente nos brotos e ramos novos. O principal sintoma de danos é a presença dos três novos folíolos (divisões das folhas) grudados por teias. Essa praga é mais importante em regiões com temperaturas amenas no inverno, como o Sul do Brasil. Segundo conselheiro do CIB, assim como no caso das lagartas das vagens e desfolhadoras, a soja Bt apresenta um alto grau de eficiência contra a broca-dos-ponteiros e a lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), que causa danos às plântulas (embriões vegetais) recém-brotadas.

Algodão

Essa cultura é infestada por um complexo de pragas bastante diversificado, o que demanda muito conhecimento, monitoramento e estratégias para mantê-la livre de perdas econômicas. As principais espécies-alvo da tecnologia Bt no algodão são:

Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) no algodão. Foto: Paulo Saran
Spodoptera frugiperda danifica tanto plantas jovens quanto folhas ou maçãs do algodoeiro

1. Lagarta-do-cartucho ou militar (Spodoptera frugiperda) – Ataca o algodoeiro desde sua emergência até a maturação, acometendo tanto plantas jovens (que podem acabar morrendo) quanto as folhas ou maçãs. No caso da cultura Bt, o MRI é prioritário porque essa espécie já evoluiu para resistência à proteína Cry1F. Portanto, as boas práticas agronômicas visando ao manejo de resistência devem ser prioritárias para a sustentabilidade dessa tecnologia no campo.

2. Lagartas desfolhadoras – Nesse grupo, estão incluídos o curuquerê-do-algodoeiro (Alabama argilacea) e a falsa-medideira (Chrysodexis includens). Aquele predomina no terço superior das plantas e esta, no terço inferior. O algodão Bt apresenta alto nível de resistência contra essas duas espécies, reduzindo seus danos a patamares muito baixos. O desafio do produtor, nesse caso, está em adotar as práticas de MRI recomendadas às culturas Bt.

3. Lagartas das maçãs – Fazem parte dessa categoria a lagarta-rosada (Pectinophora gossypiella) e integrantes dos gêneros Helicoverpa e Heliothis. Esses insetos se alimentam tanto dos botões florais quanto das maçãs do algodão em desenvolvimento. Quando os danos ocorrem diretamente nas maçãs, reduzem não só a produtividade, mas também a qualidade das fibras obtidas.

Fonte: Luna D’Alama/ Boas Práticas Agronômicas


10 jul 2017

Tire suas dúvidas sobre manejo de resistência de insetos em lavouras de milho Bt

O Brasil é hoje um dos países que apresentam aumento mais rápido na área plantada com milho geneticamente modificado. E o uso do milho transgênico com ação inseticida, popularmente conhecido como Bt, é uma das estratégias mais úteis para o manejo e controle de mariposas da ordem Lepidóptera e de larvas da espécie Diabrotica speciosa, um besouro conhecido popularmente como “vaquinha”.

As plantas transgênicas com atividade inseticida representam uma alternativa dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que busca minimizar os danos causados por insetos nas lavouras. O milho Bt (resistente a insetos) obteve essa característica por meio da introdução de genes da bactéria de solo Bacillus thuringiensis (Bt). A isso chamamos de evento de transformação genética, ou apenas evento.

O cultivo de áreas contínuas de milho com um mesmo evento resulta em uma grande pressão de seleção. Isso compromete sua eficácia no controle das pragas-alvo, ocorrendo a “quebra da resistência”. Para evitar esse problema, os produtores devem adotar uma área de refúgio, ou seja, uma parte da lavoura cultivada com plantas não Bt (convencionais ou apenas com tolerância a herbicidas).

O refúgio tem como função produzir insetos que sejam suscetíveis às proteínas inseticidas e que se acasalem com insetos resistentes provenientes das áreas Bt. O objetivo final é gerar novos indivíduos suscetíveis, preservando assim os benefícios da tecnologia Bt.

Até a safra 2016/2017, foram aprovados na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) 25 eventos transgênicos com resistência a insetos, combinando cinco proteínas inseticidas com resistência a lepidópteros e cinco com resistência a coleópteros, especificamente para a larva-alfinete da espécie Diabrotica speciosa. Destas, apenas uma está em uso comercial atualmente.

Abaixo, você pode tirar suas principais dúvidas sobre Manejo Integrado de Pragas (MIP), Manejo de Resistência de Insetos (MRI) e adoção de áreas de refúgio em lavouras de milho Bt. O conteúdo faz parte de um folder elaborado pelo Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) – que promove o programa Boas Práticas Agronômicas (BOAS) desde 2015 –, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O que é Manejo Integrado de Pragas (MIP)?

O MIP é uma estratégia-chave para garantir a proteção da lavoura de maneira econômica e sustentável. O monitoramento da cultura é atividade fundamental que não deve ser negligenciada, tanto para as pragas-alvo do evento Bt quanto para as pragas secundárias. Isso porque cada evento Bt é eficiente no controle de alguns insetos, mas não de todos. As demais pragas que podem ocorrer de forma sazonal ou em menor intensidade podem não ser alvo da proteína Bt, razão pela qual também devem ser monitoradas e manejadas.

O que é Manejo de Resistência de Insetos (MRI)?

É um conjunto de medidas adotadas para retardar a evolução da resistência de insetos às proteínas Bt. A resistência existe porque, na natureza, há alguns indivíduos raros que sobrevivem à exposição de agentes de controle, como o Bt ou inseticidas. Dentre as estratégias de MRI, destaca-se o plantio das áreas de refúgio e o uso de eventos piramidados, ou seja, que expressam mais de uma proteína efetiva para o grupo-alvo. Além disso, é importante o uso de alternativas de controle (como inseticidas químicos e controle biológico) quando a infestação das pragas atingir nível de dano.

O que é área de refúgio nas lavouras de milho Bt?

O refúgio é uma área de milho plantada com híbridos não Bt (convencional ou somente com tolerância a herbicida) em lavouras de milho resistentes a insetos (Bt). Essa área permite a sobrevivência de insetos – suscetíveis às proteínas inseticidas – que irão acasalar com as possíveis pragas resistentes vindas da cultura Bt. Esse cruzamento vai gerar novos indivíduos suscetíveis à tecnologia. O objetivo de manter uma população de pragas vulneráveis ao efeito inseticida da variedade transgênica é preservar os benefícios dessa tecnologia.

Por que plantar uma área de refúgio?

O objetivo de fazer refúgio é retardar a evolução da resistência nos insetos. Se apenas sementes híbridas Bt forem plantadas na lavoura, haverá uma grande pressão de seleção, permitindo a sobrevivência apenas dos insetos resistentes. Nas gerações seguintes, esses insetos resistentes vão cruzar entre si e haverá um aumento na população de pragas que não são controladas por meio da tecnologia Bt. Já quando há o refúgio e permite-se a sobrevivência de insetos suscetíveis, a prole desses suscetíveis com os resistentes será suscetível à tecnologia Bt.

Qual deve ser o tamanho da área de refúgio?

Existe uma recomendação do Grupo Técnico-Científico sobre Manejo de Resistência de Insetos-Praga a Proteínas Bt (GTMR), ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que trata das questões de resistência de insetos em lavouras Bt. A recomendação do grupo é que pelo menos 10% do total da área seja plantado com milho não Bt.

Como deve ser o plantio da área de refúgio?

Preferencialmente na mesma época, com híbridos de ciclos semelhantes e utilizando o mesmo sistema de produção. Todos os agricultores que utilizam tecnologia Bt precisam adotar o refúgio.

Como fazer o plantio do refúgio?

É fundamental que o milho não Bt seja plantado, no máximo, a 800 metros de distância do milho Bt. Essa distância foi baseada na dispersão das espécies adultas da lagarta-do-cartucho no campo. Portanto, as recomendações pretendem maximizar a possibilidade de encontro – e acasalamento – dos possíveis adultos sobreviventes na área de milho Bt com os insetos suscetíveis emergidos da área de refúgio. O refúgio estruturado deve ser desenhado de acordo com a área cultivada com o milho Bt e com a logística e topografia de cada propriedade. Para talhões (terrenos plantados) com dimensões acima de 800 m cultivadas com milho Bt, serão necessárias faixas de refúgio internas nos respectivos talhões.

O que pode acontecer se a área de refúgio estiver a mais de 800 m de distância do milho não Bt?

Nesse caso, há uma grande probabilidade de os insetos resistentes das lavouras Bt não encontrarem os suscetíveis para acasalamento. Consequentemente, a área de refúgio não será efetiva, comprometendo os benefícios da tecnologia.

É permitido controlar pragas na área de refúgio?

Sim. Porém, é importante lembrar que o objetivo do refúgio é gerar insetos suscetíveis. Portanto, deve-se fazer um uso racional de inseticidas (ou outras alternativas de controle) nessas áreas. Assim, toda vez que o monitoramento indicar 20% de plantas atacadas com folhas raspadas ou pequenas lesões circulares nas folhas, é o momento de usar outra estratégia, que pode ser a aplicação de bioinseticidas à base de baculovírus, ou inseticidas químicos, de acordo com a recomendação para a cultura. Desse modo, é recomendado o uso do MIP, que envolve monitoramento para tomada de decisão também na área de refúgio.

Pode-se plantar na área de refúgio outro milho Bt que já apresente baixa eficiência?

Não. O refúgio deve ser plantado com milho não Bt (convencional ou somente com tolerância a herbicida).

Qual o risco para o produtor que não adotar a estratégia do refúgio?

O produtor que não utilizar a prática do manejo da resistência pode ser a primeira vítima da quebra dessa resistência, ao não obter controle das pragas-alvo com os híbridos de milho Bt. É importante lembrar que os impactos da resistência de insetos às tecnologias Bt podem ser regionais, afetando diversas propriedades, por isso é fundamental que todos os agricultores plantem refúgio. A seleção de insetos resistentes às toxinas do Bt pode ser rápida em alguns casos. Portanto, a utilização da área de refúgio é essencial para garantir a manutenção da funcionalidade e da durabilidade das diversas tecnologias Bt.

Estruturas da área de refúgio em lavouras de milho Bt

As plantas de milho não Bt da área de refúgio devem estar no máximo a 800 m de distância das plantas de milho Bt, conforme a figura abaixo:

Para obedecer a essa regra, o plantio pode ser feito no perímetro da lavoura ou em faixas, dentro da área de cultivo, como mostra a figura abaixo:

Em área de pivô central, o refúgio pode ser feito em faixas ou em parte da área, conforme é apresentado a seguir:

Abaixo, você vê imagens de folhas raspadas ou com lesões circulares após ataque da lagarta-do-cartucho no milho: