16 out 2017

Embrapa Soja e Emater conduzem projeto de MIP e MID em 75 cidades do Paraná

Programa de MIP em fazenda do Paraná usa técnica da “batida de pano”. Foto: André Prando/Embrapa Soja

A parceria entre a Embrapa Soja e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná (Emater-PR) começou nos anos 1970, mas, até a safra 2012/2013, as ações eram focadas em palestras e no acompanhamento de algumas áreas. Desde 2013/2014, porém, as duas entidades têm feito um trabalho intensivo de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e Manejo Integrado de Doenças (MID), com atividades organizadas e contínuas, treinamentos em boas práticas agronômicas e o envolvimento de produtores e técnicos agrícolas. O MIP é um conjunto de ferramentas baseado na amostragem de insetos-alvo e no monitoramento da lavoura para tomada de decisão quanto ao controle de pragas e à racionalização do uso de inseticidas, o que acaba reduzindo os custos de produção. Já o MID se concentra em doenças como a ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi.

Desde 2013/2014, a Embrapa Soja e a Emater-PR também publicam anualmente um documento intitulado “Resultados do Manejo Integrado de Pragas da soja na safra [ano respectivo] no Paraná”. Esse material consolida o que foi verificado em todas as áreas monitoradas, chamadas de Unidades de Referência (UR), e é apresentado em eventos de capacitação. Na safra 2016/2017, o projeto acompanhou de perto 141 UR, sendo 55 talhões (39%) de soja Bt (resistente a insetos) e 86 (61%) de soja não Bt, em 75 municípios do Estado. Cada extensão em que o MIP ocorre tem cerca de 50 hectares, e são rastreados pelo menos dez pontos em áreas grandes, o que é considerado uma realidade bem representativa do Paraná.

Os agricultores assistidos pela parceria fizeram, em média, 2,1 aplicações de inseticidas ao longo do ciclo da soja na última safra, contra 3,7 realizadas em áreas comerciais que adotam a tecnologia Bt e 4,5 na média estadual – uma redução de até 53%. Além disso, a primeira pulverização nas UR foi feita, em média, mais de dois meses após a planta brotar, ao passo que nas áreas comercias do Paraná isso aconteceu um mês antes. “Esse tempo a mais antes da primeira aplicação permite uma maior colonização de inimigos naturais para controle biológico, que são benéficos e ajudam a deixar as pragas em equilíbrio e a não ter tantos surtos”, explica o pesquisador e líder da equipe de Entomologia da Embrapa Soja, Samuel Roggia.

Já a produtividade média de onde é feito o MIP foi de 64,5 sacas por hectare, contra 50 sacas/ha quatro anos atrás. Nos terrenos sem manejo integrado, a produtividade média foi de 64,2 sacas/ha em 2016/2017, mas, apesar do número equivalente, nesses locais os gastos com controle de pragas (aplicações de produtos, combustível, etc) representaram 4,1% de toda a receita bruta da produção, contra 2,3% nas áreas de MIP. “A dúvida do agricultor em adotar ou não o MIP está sempre na produtividade, mas ela se manteve. E o grande diferencial se dá nos custos de produção, é um grande incentivo, você usa menos produtos. Só há vantagens”, avalia Roggia.

Monitoramento de pragas e doenças em cultura de soja no interior do PR. Foto: Pedro Cecere Filho/Emater
Técnica da Emater faz anotações sobre MIP em visita a fazenda de soja. Foto: Pedro Cecere Filho/Emater

Questionário paralelo

Paralelamente a esse trabalho, foi aplicado um questionário com 314 produtores que não participaram do programa de MIP e MID. As perguntas eram sobre que tipo de cultivares eram utilizadas, quantas aplicações foram feitas e contra quais pragas e doenças, os produtos escolhidos, a época de semeadura, etc. “É uma radiografia do manejo da lavoura como um todo. Estamos montando uma base de dados bem extensa e, a partir desse levantamento, vamos comparar os dados com os dos agricultores atendidos”, afirma.

O entomologista da Embrapa Soja lembra que 2013 foi o ano da infestação por Helicoverpa armigera, e a partir daí teve início um alinhamento maior e atualização quanto a esse novo cenário. “Estabelecemos um protocolo, com recomendações a ser seguidas. Começamos monitorando as regiões norte, oeste e alguns pontos do sul do Paraná. A cada ano, melhoramos nossa abrangência”, destaca o especialista. Segundo ele, hoje o Estado planta 50% de soja Bt, que está presente nas regiões sul, sudeste, centro-oeste e norte.

Roggia comenta que o método de amostragem de pragas utilizado nesse projeto de MIP é a “batida de pano”, e que os insetos-alvo mais desafiadores hoje no Paraná, com maior potencial de danos, são os percevejos, principalmente o percevejo-marrom (Euschistus heros). “Os insetos sugadores de um modo geral, como a mosca-branca e os psilídeos, têm sido um desafio para a agricultura”, aponta. Além disso, o entomologista diz que, para quem não conhece direito uma lagarta, elas podem parecer todas iguais à primeira vista, mas cada uma tem sua especificidade e um produto diferente capaz de combatê-la. Já a principal doença da soja no Estado é a ferrugem.

Giros técnicos e reunião anual

Desde 2015/2016, uma vez por safra, a parceria inclui “giros técnicos” – eventos regionais que reúnem três pesquisadores da Embrapa Soja e de cinco a dez técnicos locais da Emater-PR – para conversar com produtores e vizinhos que adotam ou não MIP e MID. Nesses dias de campo, realizados sempre entre setembro e novembro, os participantes assistem a palestras sobre manejo integrado, conservação do solo, fixação biológica de nitrogênio, tecnologia de aplicação e temas afins. “Às vezes, atendemos a demandas e dificuldades pontuais, tiramos dúvidas sobre normas e mercado, e aproveitamos esses momentos também para levar informações sobre as boas práticas agrícolas”, enfatiza Roggia.

De acordo com o entomologista, essa é uma forma de a Embrapa se manter em contato com o campo e de os agricultores, por sua vez, relacionarem-se com a pesquisa. “A partir de novembro deste ano, já devemos começar alguns giros em cidades como Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Pato Branco e Campo Mourão”, prevê o especialista. De acordo com ele, até os produtores que não adotam MIP já têm reduzido o número de aplicações de inseticidas em suas lavouras. “Aos poucos, eles estão se familiarizando com os termos e práticas, e executando alguns instrumentos de manejo integrado nas plantações”, diz.

Uma vez por ano, a Embrapa Soja e a Emater-PR se reúnem, ainda, para apresentar os dados da última safra e planejar a próxima, com algumas revisões. O encontro de 2017 foi promovido entre os dias 19 e 21 de setembro, no auditório da Embrapa Soja, em Londrina, com a presença de 160 pessoas. “Mostramos os resultados em relação a pragas, doenças e aplicações de inseticidas e fungicidas, reforçando a importância do MIP e do MID”, ressalta Roggia.

Ele espera que, para 2018, a área de MIP e MID e o número de locais monitorados aumentem. “Queremos impactar o sistema produtivo como um todo, evitando que as pragas se tornem resistentes e obtendo resultados também do ponto de vista de custos, de menos resíduos lançados ao meio ambiente e de menor exposição dos agricultores, familiares e animais aos defensivos químicos. Conhecer o problema a fundo possibilita uma melhor tomada de decisão”, conclui o entomologista da Embrapa Soja.

Giro técnico realizado pela Emater e Embrapa soja em Itambé (PR). Foto: Pedro Cecere Filho/Emater
Dia de campo organizado pela Emater e Embrapa soja em Itambé (PR). Foto: Pedro Cecere Filho/Emater
Evento anual de planejamento da Embrapa e Emater-PR, em Londrina. Foto: Hugo Kern/Embrapa Soja

Fonte: Luna D’Alama/ Boas Práticas Agronômicas


06 out 2017

Conheça as principais pragas controladas pela tecnologia Bt em soja, milho e algodão

A adoção das boas práticas agronômicas, como o refúgio, o monitoramento de pragas e a aplicação de inseticidas quando necessário, ajuda a evitar ou retardar a “quebra da resistência” em insetos das ordens Lepidóptera e Coleóptera em plantações de milho, soja e algodão Bt. Algumas espécies são capazes de causar danos às três culturas, como é o caso da lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), da lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) e de integrantes dos gêneros Helicoverpa e Spodoptera. Confira, abaixo, um raio-X das três principais pragas-alvo da biotecnologia no milho, soja e algodão Bt.

Milho

Larva e besouro de D. speciosa, conhecido como “vaquinha”. Foto: Paulo Lanzetta e Jovenil da Silva/Embrapa

1. Larva-alfinete (Diabrotica speciosa) – É a larva de um pequeno besouro conhecido popularmente como “vaquinha”, “patriota” ou “brasileirinho”, por conta de sua coloração verde-amarela. Os animais adultos se alimentam dos cabelos e das folhas do milho, enquanto as larvas comem as raízes. As plantas Bt expressam uma proteína tóxica às larvas do inseto e protegem a planta durante todo o seu desenvolvimento, desde a fase vegetativa até a maturação fisiológica dos grãos. O controle dessa praga no milho convencional (não Bt) é feito com o tratamento de sementes, mas tem eficácia limitada. Segundo o engenheiro agrônomo e consultor do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) José Magid Waquil, os métodos complementares de controle são difíceis de adotar, em decorrência da complexidade de aplicação de produtos no solo depois que a planta já está desenvolvida.

2. Lagarta-do-cartucho ou militar (Spodoptera frugiperda) – A espécie sofreu uma rápida evolução de resistência à proteína Cry1F, o que tem exigido um maior esforço dos produtores e da indústria, com um intenso monitoramento das lavouras e uso de estratégias de Manejo de Resistência de Insetos (MRI). Essas mariposas põem seus ovos nas folhas, e as lagartas recém-nascidas raspam as folhas e se dispersam para as plantas vizinhas. À medida que as pragas vão crescendo, deslocam-se para a região do cartucho do milho (base da folha antes da abertura), onde provocam os maiores danos. Também atacam as plantas nos estágios iniciais de desenvolvimento, causando um sintoma conhecido como “coração morto”, que deixa as folhas mais novas murchas ou secas, terminando por causar a morte da planta por inteiro. Podem atingir, ainda, as espigas na fase reprodutiva, ocasionando perdas diretas na produção e indiretas na qualidade dos grãos, por funcionar como uma porta de entrada para fungos produtores de toxinas.

3. Lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) – Afeta as espigas do milho, o que torna a tecnologia Bt de extrema importância, pois no cultivo convencional não há um método eficiente de controle das lagartas que têm preferência por essa parte da planta. Uma alternativa de controle biológico é utilizar uma vespa do gênero Trichogramma, mas atualmente não há disponibilidade para tratar toda a área cultivada no País, aponta Waquil. Essas lagartas põem seus ovos no “cabelo” do milho e, logo após a eclosão, os filhotes penetram na espiga e ficam protegidos de agentes externos até completar a fase de larva, quando então caem no solo e passa pelo estágio de pupa. A tecnologia Bt é eficaz contra outra lagarta do gênero Helicoverpa, a armigera, que virou um grave problema há três anos no Brasil e danifica as flores e os frutos das culturas convencionais de soja, milho e algodão.

Soja

Nessa cultura, as variedades Bt são altamente eficazes contra os insetos-alvo da tecnologia. Assim, as plantas ficam protegidas contra as principais espécies de pragas, com exceção de insetos sugadores (como percevejos e a mosca-branca) e outras espécies de menor importância que podem ocorrer ocasionalmente. As três principais pragas contra as quais as cultivares Bt agem na soja são:

Lagarta-falsa-medideira atinge várias culturas do País, como soja, algodão, feijão e tomate

1. Lagartas desfolhadoras – Consomem o limbo ou lâmina foliar (parte principal da folha), reduzindo a produção da planta. Esse grupo inclui a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e a falsa-medideira (Chrysodexis includens), cuja incidência nas variedades geneticamente modificadas resistentes a insetos (Bt) é praticamente nula. A preocupação de agricultores e empresas com essas espécies, porém, está na evolução de linhagens resistentes às proteínas Bt. Portanto, o uso de estratégias de MRI é um fator decisivo para a manutenção da biotecnologia no campo.

2. Lagartas das vagens – Atacam as folhas novas, no início do desenvolvimento, e preferem se alimentar de botões florais, flores e vagens da soja, prejudicando diretamente a produtividade das plantas. Nesse grupo, estão espécies dos gêneros Helicoverpa e Heliothis. São insetos cujo controle é bem mais complexo que o das lagartas-desfolhadoras, por exemplo, já que, ao penetrar nas vagens, esses animais ficam protegidos e escondidos. Nesse caso, a tecnologia Bt torna-se ainda mais importante, pela dificuldade de controle dos métodos convencionais.

3. Broca-dos-ponteiros ou das-axilas (Epinotia aporema) – Entra na haste da planta, cavando túneis principalmente nos brotos e ramos novos. O principal sintoma de danos é a presença dos três novos folíolos (divisões das folhas) grudados por teias. Essa praga é mais importante em regiões com temperaturas amenas no inverno, como o Sul do Brasil. Segundo conselheiro do CIB, assim como no caso das lagartas das vagens e desfolhadoras, a soja Bt apresenta um alto grau de eficiência contra a broca-dos-ponteiros e a lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus), que causa danos às plântulas (embriões vegetais) recém-brotadas.

Algodão

Essa cultura é infestada por um complexo de pragas bastante diversificado, o que demanda muito conhecimento, monitoramento e estratégias para mantê-la livre de perdas econômicas. As principais espécies-alvo da tecnologia Bt no algodão são:

Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) no algodão. Foto: Paulo Saran
Spodoptera frugiperda danifica tanto plantas jovens quanto folhas ou maçãs do algodoeiro

1. Lagarta-do-cartucho ou militar (Spodoptera frugiperda) – Ataca o algodoeiro desde sua emergência até a maturação, acometendo tanto plantas jovens (que podem acabar morrendo) quanto as folhas ou maçãs. No caso da cultura Bt, o MRI é prioritário porque essa espécie já evoluiu para resistência à proteína Cry1F. Portanto, as boas práticas agronômicas visando ao manejo de resistência devem ser prioritárias para a sustentabilidade dessa tecnologia no campo.

2. Lagartas desfolhadoras – Nesse grupo, estão incluídos o curuquerê-do-algodoeiro (Alabama argilacea) e a falsa-medideira (Chrysodexis includens). Aquele predomina no terço superior das plantas e esta, no terço inferior. O algodão Bt apresenta alto nível de resistência contra essas duas espécies, reduzindo seus danos a patamares muito baixos. O desafio do produtor, nesse caso, está em adotar as práticas de MRI recomendadas às culturas Bt.

3. Lagartas das maçãs – Fazem parte dessa categoria a lagarta-rosada (Pectinophora gossypiella) e integrantes dos gêneros Helicoverpa e Heliothis. Esses insetos se alimentam tanto dos botões florais quanto das maçãs do algodão em desenvolvimento. Quando os danos ocorrem diretamente nas maçãs, reduzem não só a produtividade, mas também a qualidade das fibras obtidas.

Fonte: Luna D’Alama/ Boas Práticas Agronômicas