03 out 2017

FAO sistematiza experiência brasileira na produção do algodão colorido orgânico

A produção de algodão colorido orgânico do Assentamento Margarida Maria Alves, situado no município de Juarez Távora, região Agreste da Paraíba, tornou-se uma referência para produtores do Brasil e de diversos países da América Latina e do Caribe. Para sistematizar essa experiência e contribuir com o compartilhamento desse sistema de produção, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a Agência Brasileira de Cooperação do Ministério de Relações Exteriores (ABC/MRE) lançaram neste mês a publicação “Algodão Orgânico Colorido: Gerando renda e cidadania na agricultura familiar do semiárido brasileiro”.

A obra integra uma série de ações do projeto Más Algodón (Fortalecimento do Setor Algodoeiro por meio da Cooperação Sul-Sul), resultado de parcerias trilaterais entre o governo brasileiro, a FAO e os governos da Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Haiti, com recursos do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA).

“Esta publicação faz parte de uma série de estudos que tem por objetivo identificar, sistematizar e difundir práticas e conhecimentos relevantes para a agricultura familiar do setor algodoeiro nos países da América Latina e do Caribe. Sua finalidade é compor um conjunto de aportes técnicos e didáticos que valorizem e ofereçam visibilidade às experiências, técnicas e saberes que contribuem para a sustentabilidade de milhares de famílias agricultoras e pequenos empreendedores rurais nesses países”, afirma a coordenadora regional de Projeto de Fortalecimento do Setor Algodoeiro por meio da Cooperação Sul-Sul na FAO, Adriana Gregolin.

O material relata a experiência de retomada do cultivo de algodão e a conversão ao sistema orgânico de produção por agricultores familiares do assentamento Margarida Maria Alves. “Esta iniciativa pioneira no semiárido brasileiro proporcionou respostas positivas aos desafios de produção, renda e associativismo enfrentados por essas famílias, refletidas na organização e gestão da associação comunitária, na conscientização ambiental, na adoção de práticas que possibilitam a convivência e o controle biológico de pragas do algodoeiro e o melhor uso da água e do solo, como os fertilizantes orgânicos, a rotação de culturas e o manejo integrado de pragas”, destaca a especialista em cooperação Sul-Sul e consultora da FAO, Juliana Rossetto.

O estudo aponta ainda os resultados positivos sobre o cultivo de algodão em base agroecológica de práticas de manejo adequadas ao perfil da agricultura familiar e ações efetivas de pesquisa participativa e extensão rural. O acesso ao mercado justo, com inserção em um sistema orgânico verticalizado que integra desde a produção até a indústria, no qual os agricultores pré-processam o algodão na própria comunidade é outro fator de sucesso. “Nesse contexto, cabe destacar o papel da Embrapa Algodão, que desde 2000 apoia a experiência dessas famílias agricultoras”, acrescenta Rosseto.

Entre os impactos da produção do algodão colorido orgânico na comunidade são destaque a geração de emprego e renda e a melhora da qualidade de vida das famílias. “A cultura do algodão orgânico, quando interligada a uma cadeia que articula o produtor com o consumidor de produtos ecologicamente corretos, pode ser uma boa alternativa para melhorar rendimentos, mesmo sem o uso de insumos químicos e na presença de pragas e de risco climático”, diz a especialista da FAO.

Tramando e transformando: Justa Trama, a cadeia solidária do algodão agroecológico

Outra experiência sistematizada pela FAO como uma boa prática brasileira de cooperativismo na cadeia de valor do algodão orgânico foi a da Rede Justa Trama. A rede é composta por oito empreendimentos – cooperativas, associações e grupos de trabalhadores autogestionários –, distribuídos em diversas regiões do Brasil, seguindo os princípios da economia solidária e do comércio justo. “A Justa Trama é um caso de êxito na integração da cadeia de valor do algodão, desde o cultivo pela agricultura familiar até o consumidor final, passando pelo beneficiamento, fiação, confecção e comercialização. Os produtos finais são roupas e confecções produzidos com algodão orgânico naturalmente colorido”, destaca.

Segunda ela, a rede trabalha comprometida com práticas de manejo ambientalmente sustentáveis e que garantem as condições dignas do trabalho e a equidade de gênero. “A rede foi capaz de gerar resultados brilhantes nesse sentido, com valorização do trabalho, resgate da autoestima, qualificação profissional e melhoras na qualidade de vida de agricultores familiares e trabalhadores que dela fazem parte”, diz.

Fonte: Embrapa Algodão


22 set 2017

Certificação de cadeias produtivas deve ser um processo voluntário

Nelson Ananias foi um dos palestrantes do 11º Congresso Brasileiro do Algodão. (Crédito: Boas Práticas Agronômicas)

A certificação de cadeias produtivas do agronegócio pode ser uma opção interessante para o reconhecimento de uma gestão sustentável e respectivo retorno econômico, mas deve ser decisão voluntária. A posição é defendida pelo coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nelson Ananias Filho.

Segundo ele, certificação é o processo pelo qual é monitorada a aplicação de um conjunto de critérios previamente estabelecidos e validados, com, necessariamente, emissão um selo que assegure o cumprimento desses princípios e a boa qualidade socioambiental do produto consumido.

“É um processo voluntário, no qual uma organização busca o reconhecimento, através da garantia dada aos seus clientes e à sociedade de que seu produto tem origem em propriedades adequadamente manejadas quanto aos aspectos ambiental, social e econômico”, explica.

Em relação aos critérios de verificação regulamentar, o coordenador de Sustentabilidade da CNA esclarece que devem ser atendidas as normas ambientais da legislação brasileira, assim como regras trabalhistas nacionais e internacionais. Casos de certificação na fruticultura (Produção Integrada no Brasil), na soja (Programa Soja Plus) e na cafeicultura (Currículo de Sustentabilidade do Café) ajudam a compreender melhor as etapas e os desafios do processo.

“As leis restritivas ambientais e trabalhistas do Brasil já são um diferencial competitivo importante. Somos cautelosos quanto a exigência de certificação, pois isso poderia segregar o mercado e prejudicar aqueles produtores que estão cumprindo a legislação. A decisão de certificar deve ser opcional para aqueles que desejam comprovar a sua sustentabilidade, buscar novos mercados e maior rentabilidade”, avalia Ananias.

Outro exemplo interessante acontece na cadeia do algodão, onde a certificação é a própria produção da fibra sustentável, com licenciamento Better Cotton Initiative (BCI). Devido à biotecnologia existente nas variedades de algodão – que permite com que os produtores rurais realizem o manejo integrado de pragas de forma mais segura, utilizando produtos químicos e biológicos – a certificação é favorecida. Essa prática, além de reduzir custos, confere um ganho ambiental pela redução da necessidade de uso de defensivos agrícolas.


06 set 2017

Produtores de algodão podem ter desafio de produtividade como o da soja, prevê ABRAPA

Um desafio nacional para premiar, anualmente, os recordistas em produtividade de algodão do País, a exemplo do que o Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) faz há quase uma década, é o novo projeto da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA). A ideia é realizar uma reunião plenária sobre o tema em até 30 dias e preparar o concurso já para 2018.

“A primeira edição será já no próximo ano se as associações regionais [como ABAPA, AMPA, AMAPA, AMIPA e AGOPA] e todo o elo da cadeia concordarem com a proposta. Em três meses, acredito ser possível estruturar o plano, e boa parte do que já vem sendo feito na soja poderá ser transferido para o algodão”, afirma o engenheiro agrônomo Celito Breda, diretor da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA) e representante da ABRAPA no 11º Congresso Brasileiro do Algodão, em Maceió, onde falou sobre o assunto e mostrou números da cadeia produtiva nacional.

Segundo o especialista, que planta a commodity na Bahia e no Piauí, a meta é envolver 100% dos agricultores. O foco serão os maiores produtores de Estados como BA, MT, MS, GO, MG e SP. “O ideal é abranger os cerca de 500 grupos de produtores que tocam todo o algodão tecnificado [que usa alta tecnologia] no Cerrado. Mas com 100 deles já cobriríamos 70% da área cultivada”, diz Breda, que conta com a consultoria do presidente do CESB, Nery Ribas.

O diretor da ABAPA enfatiza que os agricultores do Cerrado têm equipe técnica qualificada, bons resultados e podem transmitir seus conhecimentos aos pequenos produtores. “Por que alguém produziu tanto? Por que aquele não produziu como o esperado? O que faltou? Precisamos entender essas variáveis, e temos uma equipe preparada para isso. Vamos quantificar acertos, padronizar protocolos e trocar informações”, destaca.

Assim como o CESB faz após seu Fórum Nacional de Máxima Produtividade, a ABRAPA deve coordenar encontros regionais, levando cada um dos campeões para circular pelos Estados com seus cases de sucesso.

Celito Breda falou sobre desafio de produtividade do algodão que a ABRAPA quer lançar. Foto: Luna D’Alama

Até 400 arrobas por hectare

Breda explica que a ABRAPA deverá criar diferentes categorias, como algodão safra, safrinha, irrigado e de sequeiro. E o desafio pode abranger talhões de 10 a 20 hectares, como ocorre no CESB. A expectativa é obter uma média de produtividade acima das 300 arrobas por hectare. “O Brasil tem uma das melhores médias mundiais de produtividade de algodão. A Bahia, por exemplo, alcançou média de 310 arrobas por hectare de algodão em caroço este ano, um recorde histórico em mais de duas décadas. Alguns produtores já fecham áreas com 400 arrobas/ha. Isso, há dez anos, a gente conseguia em 1% a 2% do total plantado. Hoje chegamos a esse patamar em 20%, 25% da lavoura”, ressalta o representante da ABRAPA.

Ele reconhece que não é fácil manter médias excelentes a longo prazo, mas espera que seja possível aumentar a média atual. “Por isso, falo sempre sobre a importância de escolher bem as variedades, monitorar o terreno e treinar o pessoal. Evoluímos bastante no manejo do bicudo-do-algodoeiro e da Helicoverpa armígera, mas ainda temos alguns desafios em relação a pragas como a mosca-branca e a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda). Não podemos falar em bons resultados tendo problemas de infestação de mosca-branca na BA, no MT e no MS”, aponta.

Para Breda, os bons resultados já obtidos são creditados às boas práticas agronômicas. “Cresceu muito a adoção das boas práticas, principalmente na área fitossanitária, para fazer um manejo correto do bicudo, da mosca-branca, na questão da fertilidade, já há todo um cuidado diferenciado para cada variedade”, enumera.

De acordo com o diretor da ABAPA, porém, ao contrário da soja, existe um risco financeiro maior no caso do algodão. “Você investe até quatro vezes mais por hectare, considerando toda a cadeia. Mas a rentabilidade pode chegar a cerca de US$ 2 mil/ha, com taxa de retorno acima de 50%”, pondera.

A área total de algodão cultivada no Brasil já chega a quase um milhão de hectares, e a produção na safra 2016/2017 foi de 1,4 milhão de toneladas em pluma (que tem maior interesse para exportação e amplo uso na indústria têxtil) e 3,7 milhões em caroço, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). A safra 2017/2018 começa a ser plantada por volta da segunda quinzena de novembro.

Fonte: Boas Práticas Agronômicas


01 set 2017

Embrapa prevê algodão transgênico resistente ao bicudo

Bicudo é a principal praga do algodoeiro no Nordeste e no Cerrado. Foto: Regina Sugayama

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) trabalha em parceria com entidades e centros de pesquisa para o desenvolvimento de um algodão transgênico resistente ao bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis). Essa espécie de besouro, de coloração cinza ou castanha, mandíbulas afiadas e originária da América Central, chegou ao País na década de 1980, em São Paulo, e é considerada hoje a principal praga dessa cultura no Nordeste e no Cerrado, atingindo tanto variedades convencionais quanto Bt (resistentes a insetos).

“Em oito ou dez anos, essa semente [resistente ao bicudo] pode estar à disposição do produtor”, disse o chefe da Embrapa Algodão, Sebastião Barbosa, em entrevista ao Canal Rural durante o 11º Congresso Brasileiro do Algodão, que terminou no dia 1º em Maceió. O controle de pragas foi um dos principais assuntos desta edição do evento, que teve como tema “Inovação e rentabilidade na cotonicultura”.

A pesquisa envolverá duas unidades da Embrapa (Algodão e Recursos Genéticos e Biotecnologia) e o Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), com financiamento da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA), através do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). Na primeira fase do projeto, serão investidos cerca de R$ 18 milhões ao longo de cinco anos.

A Embrapa já trabalha na modificação de plantas do algodoeiro, introduzindo genes da bactéria Bacillus thuringiensis, que produz toxinas letais para alguns insetos. Mas, apesar de existirem no mercado várias opções de algodão geneticamente modificado resistentes a lagartas, ainda não existe algodoeiro resistente ao bicudo. Entre as etapas do projeto, estão a prospecção de genes e promotores moleculares, a transformação genética de plantas de algodão e estudos da eficiência das plantas transgênicas no controle do bicudo em laboratório, casa de vegetação e campo.

Segundo o engenheiro agrônomo e consultor do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) José Magid Waquil, a pesquisa da Embrapa para obter algodão resistente ao bicudo está em andamento há vários anos. “Essa seria uma tecnologia revolucionária para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) no algodoeiro”, destaca.

O uso da biotecnologia para controlar esse inseto pode significar uma enorme economia aos produtores brasileiros, que gastam cerca de US$ 80 milhões por ano, ou US$ 250 por hectare, para combater o bicudo, apontam estimativas. Sozinho, o inseto é responsável por mais de 10% dos custos totais de produção do algodão. Além das perdas de produtividade, ele causa impactos à saúde humana e ao meio ambiente.

O bicudo fura a maçã (fase de abertura do fruto) e o botão floral do algodão para se alimentar. Nesse orifício, deposita seus ovos e sela o buraco com uma cera de proteção, explica Waquil. O besouro tem, em média, 7 milímetros de comprimento. Seu ciclo de vida, do ovo ao animal adulto, completa-se em cerca de 20 dias. Portanto, podem ocorrer até seis gerações do besouro em uma única safra, o que justifica a preocupação dos agricultores em eliminar essa praga das lavouras. Os produtores de algodão chegam a fazer entre 15 e 40 aplicações de inseticida durante a safra.

Besouro fura maçã e botão floral do algodão para comer e pôr ovos. Foto: Sebastião José de Araújo/Embrapa

Fonte: Boas Práticas Agronômicas


28 ago 2017

Diversidade de manejo é chave contra resistência no campo, diz pesquisador

Professor Pedro Christofoletti, da ESALQ-USP, durante o Congresso do Algodão. Foto: Luna D’Alama

Entre os vários desafios que o produtor enfrenta no dia a dia do campo, está a iminência de pragas, doenças e plantas daninhas resistentes a tecnologias e produtos utilizados sistematicamente. Das espécies de daninhas que já apresentam resistência ao herbicida glifosato, por exemplo, o engenheiro agrônomo e pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Christofoletti cita o capim-amargoso (Digitaria insularis), o capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), a buva (Conyza ssp) – problema maior no inverno, durante a entressafra – e a Amaranthus palmeri – que atinge principalmente os cultivos de algodão nos Estados Unidos.

Christofoletti falou sobre o tema no dia 29 de agosto, durante o 11º Congresso Brasileiro do Algodão, que vai até esta sexta em Maceió. Segundo ele, na literatura mundial, também já há casos de resistência de daninhas ao glufosinato de amônio. “Existem registros de capim-pé-de-galinha resistente a herbicidas na Malásia e de azevém resistente a glifosato e glufosinato nos EUA. Podemos ver isso aqui no Brasil no futuro, então precisamos ter cautela e usar os produtos corretamente”, alerta o professor da ESALQ.

Segundo ele, é fundamental que o agricultor se convença a adotar uma estratégia diversificada de manejo, sem se “acomodar” com as tecnologias disponíveis nem usá-las exclusiva e indiscriminadamente. “Com os atuais problemas, muitos produtores voltam a utilizar os velhos herbicidas”, que têm maior impacto sobre o meio ambiente, aponta Christofoletti.

A diversidade de manejo, de acordo com o pesquisador da USP, deve valer tanto no caso das plantas daninhas quanto no das pragas e doenças. “Não há solução única para os problemas fitossanitários. É necessário pensar em sustentabilidade e a longo prazo na hora de decidir o melhor momento e as doses adequadas de aplicação de cada herbicida”, destaca.

Ênfase nas boas práticas

No dia 30 de agosto, o engenheiro agrônomo Rubem Staudt, da consultoria Astecplan, ressaltou que, se há uma planta de buva ou de capim-amargoso este ano no algodoeiro, pode ter o triplo em 2018, se as medidas recomendadas não forem postas em prática. “É um problema sério que temos para resolver”, diz. O especialista também falou da importância de um monitoramento contínuo de plantas daninhas, doenças e pragas não alvo da biotecnologia, e não apenas quando já se atingiu nível de dano econômico. “As fazendas devem, ainda, investir no treinamento de pessoal, que precisa estar comprometido com essas atividades”, completa.

As boas práticas agronômicas foram tema de outra palestra no Congresso, ministrada pelo coordenador agrícola do Grupo Scheffer em Sapezal (MT), Sergio Vidal de Arruda. Ele enfatizou a necessidade de um esforço conjunto dos produtores para atingir os melhores números de produção e produtividade. “Dependemos também dos nossos vizinhos para adotar as boas práticas, senão os resultados serão muito inferiores ao que esperamos”, avalia.

Leia também sobre 10 curiosidades do algodão, fibra amplamente usada na indústria têxtil e na medicina.

Fonte: Boas Práticas Agronômicas


04 ago 2017

10 curiosidades sobre o algodão, fibra amplamente usada na indústria têxtil e na medicina

O algodão é responsável por uma das principais cadeias produtivas do Brasil e do mundo. Essa commodity responde por parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) do País e emprega, direta e indiretamente, milhões de brasileiros. Só no ano passado, a receita nacional com exportação dessa fibra, em pluma ou caroço, chegou a US$ 1,215 bilhão, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A área total de algodão cultivada no nosso território já chega a quase um milhão de hectares, e a produção na safra 2016/2017 foi de 5,2 milhões de toneladas, aponta estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB).

A seguir, veja dez curiosidades sobre o algodão que certamente vão te surpreender:

1 – Tem várias origens:

As espécies mais comuns de algodão (Gossypium L.) vieram da África Central, da península Arábica, do Paquistão e das Américas, regiões onde há registros que datam de 3 mil a 4.500 anos a.C. As primeiras referências históricas a essa fibra branca e macia foram escritas em sânscrito, no Código de Manu, considerado a legislação mais antiga da Índia. Há documentos, ainda, apontando que essa cultura estava espalhada pelo Egito, Sudão e toda a Ásia Menor. No Novo Mundo, os incas, no Peru, e os mexicanos do Vale de Tehuacán também já usavam o algodão bem antes do Descobrimento, dominando técnicas como a extração da fibra, fiação e tecelagem. Com a domesticação da planta pelo homem, o fruto do algodoeiro aumentou muito de tamanho, para ganho de produtividade e aumento de resistência a doenças. A confecção de tecidos na China data de 2.200 a.C. Na Grécia, o algodão foi introduzido por Alexandre, o Grande e chegou até o Egito, onde se produziu a melhor espécie, no século V a.C. No século XVIII, após o desenvolvimento de máquinas de fiação, do tear mecânico e do descaroçador de algodão, a tecelagem dessa fibra passou a dominar o mercado mundial de fios e tecidos. Hoje, cultivam-se comercialmente os tipos arbóreo e herbáceo.

2 – Seu nome vem do árabe:

A palavra algodão deriva do termo árabe “al-quTum” (“o cotão”, que significa pelo ou felpa que se desprende de certos tipos de tecidos). Foram os mercadores dessa região que difundiram a planta pela Europa entre os séculos IX e XI. O nome gerou, ainda, os vocábulos cotton, em inglês; coton, em francês; cotone, em italiano; e algodón, em espanhol. Os árabes foram o primeiro povo a fabricar tecidos e papéis utilizando essa fibra, algo só adotado pela Europa durante as Cruzadas. Até a Idade Média, porém, as classes mais baixas europeias usavam predominantemente roupas de lã, linho e juta.

3 – É da família do quiabo e do hibisco:

É isso mesmo. Por mais incrível que pareça, a planta do algodão, do quiabo e as flores do gênero Hibiscus têm em comum o fato de pertencerem à família das Malvaceae. Fazem parte dela mais de 2 mil espécies espalhadas pelo mundo, principalmente na América do Sul. Elas têm em comum a presença de pelos ramificados ou escamosos. A flor amarela do algodão, inclusive, lembra às de um hibisco.

Algodão é da família do quiabo (à esq.) e sua flor amarela se parece com as do hibisco

4 – O tamanho da fibra indica a qualidade do tecido:

Cerca de 97% da produção mundial de algodão é de fibras curtas e médias. Os outros 3%, compostos por fibras longas e extralongas, são fabricados no Egito, nos Estados Unidos e no Peru. Essas variedades são conhecidas como Giza (egípcia), tipo mais branco, brilhante e resistente, e Pima (americana e peruana), algodão que tem a fibra mais fina e longa do mundo, é macio, brilhante, não forma bolinhas e sua cor natural é “branco cremoso”. O algodão de fibra longa (superior a 32,5 mm) tem características que atendem à fabricação de tecidos finos e de luxo, a exemplo dos famosos lençóis e toalhas de fios egípcios. Atualmente, o Brasil importa fibras longas principalmente do Egito, para misturar com fibras médias e produzir um fio de melhor qualidade.

5 – A Índia é o maior produtor mundial:

Os indianos lideram a produção global de algodão, com 5,7 bilhões de toneladas na safra 2016/2017 – o equivalente a um quarto do total colhido no mundo –, segundo dados do Comitê Consultivo Internacional do Algodão (ICAC) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Em seguida, aparecem China (com 20% da produção do planeta), Estados Unidos (17%), Paquistão (7,5%), Brasil (6,2%) e outros (24,3%), como Uzbequistão, Turquia, Austrália, Argentina, Turcomenistão, México e Mianmar. Já entre os maiores exportadores, estão os EUA (37%), Índia (12%), Brasil (8,5%) e Austrália (11,5%). Os outros 31% são exportados por diferentes países. E a lista de maiores consumidores é encabeçada por China, Índia, Paquistão, Turquia, Bangladesh, EUA e Brasil.

6 – Começou a ser usado no Brasil pelos indígenas:

Pouco se sabe da pré-história do algodão no Brasil. Mas, quando os primeiros europeus desembarcaram no País, já havia índias cultivando essa planta e a transformando em fios e tecidos rudimentares. Mas a exploração comercial dessa cultura no território nacional começou mesmo em 1750, no Nordeste, sucedendo as atividades de mineração comandadas pelos portugueses. Durante o Ciclo do Algodão, entre os séculos XVIII e XIX, o Brasil chegou a ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais dessa fibra, que era usada como matéria-prima para a indústria têxtil inglesa durante a Revolução Industrial. Com o avanço da cultura do café, a partir do início do século XIX, o algodão deixou de ter tanta importância para exportação. A situação se agravou com a devastação de várias plantações por um inseto chamado bicudo-do-algodoeiro, na década de 1980, levando o País a importar o produto. Nos anos 2000, porém, a situação melhorou, e em 2016, a receita nacional com exportação da commodity chegou a US$ 1,215 bilhão, segundo dados do Ministério da Agricultura.

7 – MT, BA e MS são os maiores produtores nacionais:

O Mato Grosso, sozinho, responde por quase 67% da produção brasileira de algodão em pluma e em caroço, que foi de 5,2 milhões de toneladas na safra 2016/2017, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Em seguida, no ranking, aparecem Bahia, Mato Grosso do Sul e Goiás. Há, ainda, produção em Estados como MA, MG, PI, TO, RR e SP. Paraná, Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba têm pouca expressividade, com menos de 1% cada. O plantio ocorre de outubro a fevereiro, e a colheita se estende de março a agosto. Cerca de 50% da produção nacional de algodão é exportada. Os maiores compradores são Indonésia, Coreia do Sul, Vietnã, Bangladesh, Paquistão, China e Malásia.

8 – Quase 80% do algodão plantado no Brasil é transgênico:

Do total de variedades de algodão cultivadas em 2016 no País, 78,3% eram geneticamente modificadas (GM), segundo dados do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA). No mundo inteiro, a taxa de adoção chega a 64%. O primeiro algodão transgênico foi aprovado em 1995 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil uma década depois, quando foi liberado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Hoje, há 15 cultivares diferentes de algodão GM plantadas no território nacional, sendo nove delas Bt (resistentes a insetos). Entre os países com maior adoção de variedades transgênicas de algodão, estão: Estados Unidos, Argentina, Índia, China, Paquistão, África do Sul, México, Austrália e Mianmar.

9 – É usado na fabricação de óleo, rações e até explosivos:

Enquanto o algodão em pluma é destinado basicamente à indústria têxtil, a variedade em caroço é usada na produção de óleo comestível, biodiesel e em misturas para rações animais e adubos. O óleo, por exemplo, pode ser utilizado no preparo de saladas, maioneses, molhos e frituras, além de servir como lubrificante e ingrediente de margarinas, biscoitos, cosméticos, remédios, sabões e graxas. Tem coloração que varia do amarelo claro ao dourado, um leve sabor de castanha (pois é retirado do caroço da planta) e é rico em vitamina E. O caroço também é esmagado e vira subprodutos como a torta (usada como fertilizante e na indústria de corantes) e o farelo (aproveitado como ração animal, principalmente para bois e carneiros). O farelo de algodão é o terceiro farelo proteico mais produzido no mundo, perdendo apenas para o de soja e o de canola. Além disso, o algodão hidrófilo – desengordurado, branqueado e esterilizado – tem maior capacidade de absorção e amplo uso em curativos, cirurgias, produtos de higiene (como absorventes e cotonetes) e limpeza da pele. Já na indústria bélica, o algodão é empregado na preparação de pólvora e em outros explosivos como o TNT. E a celulose da planta serve para a fabricação de papel-moeda – na nota de dólar, por exemplo, compõe 75% do material.

Farelo de algodão utilizado em rações de animais como bois e carneiros

10 – Há algodão naturalmente colorido:

Algumas variedades de algodão têm colorações que variam entre o bege, o caqui e o marrom. Essas plantas já eram usadas por incas, africanos, árabes e australianos há 4.500 anos – nesse último país, existem mais de dez espécies nativas com diferentes tonalidades. Essas variedades contêm genes responsáveis por tornar a fibra colorida. Há registros, ainda, de espécies com fibras de cor verde, roxa, vermelha, cinza, rósea e azul. A maioria, porém, tem fibra curta e não reúne condições ideias de fiação. No Brasil, as cultivares de algodão colorido foram obtidas por processos tradicionais de melhoramento genético, envolvendo seleção de plantas e hibridação. Entre as vantagens econômicas e ecológicas de uma fibra naturalmente colorida estão o fato de que ela não desbota e dispensa o uso de corantes. Com a fase de tingimento eliminada, economiza-se cerca de 150 litros de água por quilo de fibra. Além disso, evita-se a poluição de rios e córregos com resíduos de tintas.

Fontes: Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), Algodão – Coleção 500 Perguntas 500 Respostas da Embrapa, Embrapa Algodão, Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), Comitê Consultivo Internacional do Algodão (ICAC), Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA), Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (AMPA), Associação Baiana dos Produtores de Algodão (ABAPA), Associação Mineira dos Produtores de Algodão (AMIPA), Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Revista Globo Rural.