Boas Práticas

BOAS PRÁTICAS AGRONÔMICAS

Desde a regulamentação dos organismos geneticamente modificados (OGMs) no País e o início da comercialização de sementes transgênicas resistentes a insetos, os produtores de soja, milho e algodão ganharam uma importante aliada no campo: a tecnologia Bt.

Os híbridos com resistência a insetos são denominados sementes Bt, pois a característica é obtida por meio da inserção de genes da bactéria presente no solo Bacillus thuringiensis (Bt), que promovem a expressão de proteínas inseticidas. Diversos genes já foram identificados nessa bactéria, e as proteínas que eles originam são específicas para as diversas pragas das lavouras de soja, milho e algodão. Quando ingeridas pela praga-alvo, essas proteínas causam danos ao sistema digestivo, levando à morte do inseto.

Devido aos benefícios advindos do uso da tecnologia as sementes Bt têm sido cada vez mais utilizadas no campo. No entanto, para garantir sua eficácia no longo prazo é necessário um conjunto de técnicas de manejo que chamamos de Boas Práticas Agronômicas. Tais estratégias contemplam: dessecação antecipada, uso de semente certificada, tratamento de sementes, adoção de áreas de refúgio, controle de plantas daninhas e voluntárias e monitoramento de pragas.

A fim de engajar produtores de todo o País na adoção dessas estratégias, o Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) vem desenvolvendo o programa Boas Práticas Agronômicas (BOAS). Para isso, o CIB vem promovendo ações para que o produtor proteja não somente seu investimento, mas a produtividade de toda a agricultura brasileira.

Com este objetivo, o CIB e o SENAR tornam-se parceiros e convidam o produtor a lançar mão das boas práticas para sustentabilidade da tecnologia Bt. Aqui você encontrará informações de como fazer parte deste ciclo produtivo.

DESSECAÇÃO ANTECIPADA

A dessecação antecipada é um passo fundamental para o manejo da lavoura e a sustentabilidade da biotecnologia no campo. A prática controla plantas daninhas e tigueras (plantas da cultura anterior, principalmente as RR), evitando a interferência delas na evolução da cultura principal. Sem esse controle, essas plantas podem se tornar hospedeiras de pragas que atacam as culturas na fase inicial, além de causar problemas de mato-competição. No plantio direto, a pressão inicial dos insetos costuma ser ainda maior, exigindo atenção redobrada. Muitas vezes, é necessária a aplicação de inseticidas para inibir a presença de lagartas remanescentes.

O momento da dessecação depende da cobertura vegetal da área, mas o ideal é que ela seja feita cerca de 30 dias antes do plantio e, em alguns casos, mais uma vez logo antes da semeadura.

Quando realizada no momento certo, além de controlar as plantas daninhas, a dessecação propicia maior eficiência do uso de inseticida, facilita o corte da palhada pela plantadeira, protege a umidade do solo e evita que resíduos da cultura do plantio anterior interfiram na atual.

SEMENTES CERTIFICADAS

Dentro do Manejo da Resistência de Insetos (MRI), a utilização de sementes certificadas é a primeira importante decisão da safra. Sua adoção garante a qualidade da variedade plantada e evita gastos na produção e no uso dos agroquímicos. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a certificação de sementes prevê o controle de qualidade em todas as suas etapas, o que dá ao produtor segurança sobre a cultivar adquirida e seus benefícios. Esse procedimento contribui para a redução de irregularidades do ponto de vista legal e técnico no processo de produção e comercialização.

O MAPA também apoia o uso de sementes certificadas por meio de ações de fiscalização contra a pirataria na produção e comercialização. Essa iniciativa é importante, pois dependendo do desenvolvimento e manuseio da semente ela pode deixar de expressar todas as suas potencialidades e ter seu rendimento comprometido. O uso de sementes piratas, por sua vez, pode ter um efeito devastador no campo ao reduzir a produtividade, aumentar o risco de propagação de pragas e a necessidade de defensivos químicos.

TRATAMENTO DE SEMENTES

O tratamento de sementes é uma prática fundamental para o controle de uma ampla gama de pragas subterrâneas e doenças que atacam as culturas nas fases iniciais de desenvolvimento. Ela garante a proteção da semente no solo, caso a semeadura ocorra com períodos de seca ou de baixa disponibilidade hídrica, e contribui para a proteção e longevidade da biotecnologia. É também uma ferramenta importante dentro do Manejo de Resistência de Insetos (MRI) ao colaborar para o estabelecimento de plantas nas áreas de refúgio e servir como modo de ação em áreas Bt na fase inicial de desenvolvimento da lavoura.

Tecnicamente, o tratamento de sementes consiste na aplicação de ingredientes químicos e/ou organismos biológicos nas sementes com o objetivo de afastar patógenos, insetos e outras pragas. Também são considerados tratamento de sementes tecnologias como inoculantes, agentes de proteção a herbicidas, micronutrientes, reguladores de crescimento, revestimentos de sementes e corantes. Assim, a escolha correta do produto químico é essencial para o sucesso dessa operação.

ADOÇÃO DO REFÚGIO

A introdução da tecnologia Bt no Brasil teve impacto bastante positivo no controle de pragas, porém ela exige um manejo específico. O cultivo de áreas contínuas com sementes Bt resulta em grande pressão de seleção, ou seja, faz com que indivíduos raros, mas que são naturalmente resistentes, sobrevivam e se tornem maioria na população.

Para retardar a evolução de pragas resistentes é fundamental que o produtor adote uma área de refúgio, ou seja, uma parte da lavoura plantada apenas com híbridos não Bt (sementes convencionais ou somente com tolerância a herbicida). Essa área é fundamental para produzir insetos suscetíveis à toxina inseticida que acasalem com os indivíduos resistentes provenientes das áreas plantadas com biotecnologia e gerem uma prole suscetível ao Bt.

Ao manter uma população de pragas vulneráveis ao efeito inseticida da variedade transgênica o produtor irá preservar os benefícios da biotecnologia por muito mais tempo no campo.

PLANTIO DO REFÚGIO

A recomendação do Grupo Técnico-Científico sobre Manejo de Resistência de Insetos-Praga a Proteínas Bt (GTMR), ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), é a de que a área de refúgio seja 20% para soja e algodão e 10% para o milho.

  • É fundamental que o refúgio esteja localizado à distância máxima de 800 metros da lavoura Bt e seja plantado com um híbrido de porte e ciclo similar ao da planta Bt.
  • Para talhões com dimensões acima de 800m cultivados com Bt, serão necessárias faixas de refúgio internas nos respectivos talhões.
  • A distância estipulada é baseada na locomoção das espécies adultas da lagarta-do-cartucho no campo, visando maximizar as chances de encontro e acasalamento das pragas resistentes da lavoura Bt com os insetos suscetíveis emergidos da área de refúgio.

Não use a área do seu vizinho como refúgio! Apesar do processo de seleção de populações resistentes ocorrer dentro de cada propriedade, os prejuízos são observados no âmbito regional, afetando inclusive propriedades que possam ter implementado o refúgio de acordo com o recomendado. O produtor que adota o refúgio protege não somente seu investimento, mas a produtividade da agricultura do País.

CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS

Tão antigo quanto a própria agricultura, o controle de plantas daninhas é parte importante do manejo e fundamental para a rentabilidade da safra. Essas plantas podem prejudicar toda a lavoura, uma vez que elas competem pela luz solar, pela água e pelos nutrientes e, dependendo do grau de infestação, podem dificultar a colheita. O controle das plantas daninhas também é necessário para evitar que elas se tornem hospedeiras de insetos remanescentes das culturas anteriores ou se tornem fontes de lagartas em estágios mais avançados, dificultando a ação da tecnologia Bt.

Algumas ações irão facilitar o controle das ervas daninhas. Tome nota:

  • Não deixar áreas em pousio
  • Começar a cultura no limpo
  • Utilizar a dose e o momento correto de aplicações dos herbicidas no sistema de manejo
  • Fazer o manejo pós-colheita

MONITORAMENTO DE PRAGAS

O monitoramento da população de insetos na lavoura é fundamental na tomada de decisão e não pode ser negligenciado, tanto para as pragas-alvo quanto para as consideradas pragas secundárias. Ele é a base de todo programa de manejo, determina a situação das pragas na cultura, avalia os prejuízos e deve ser realizado durante todo o ciclo da cultura. Sua principal função é definir o momento correto da aplicação de inseticida, além de avaliar se é necessário fazer mais de uma aplicação ou alternar inseticidas com diferentes modos de ação.

A rápida adoção da tecnologia Bt na cultura do milho no Brasil foi reflexo da boa eficiência no manejo das principais pragas. Porém, o manejo inadequado pode ter como consequência a perda da eficácia dessa tecnologia. Com a ameaça de novas pragas, muitos agricultores têm aumentado o número de aplicações de inseticidas nas lavouras Bt. Na maioria das vezes, a aplicação é feita sem que haja real necessidade, o que resulta na elevação do custo da produção e em maiores danos ambientais.

MANEJO DO INSETICIDA

Com a lavoura estabelecida, é o momento de monitorar a população de insetos e plantas daninhas. No refúgio é permitido o uso de outros métodos de controle, desde que não sejam utilizados inseticidas à base de Bt e que esse manejo permita a sobrevivência de um número significativo de insetos suscetíveis.

Durante o monitoramento, quando a infestação da praga atingir nível de dano, é importante a utilização de alternativas de controle. Quando for verificado que cerca de 20% de plantas foram atacadas e encontram-se raspadas ou com pequenas lesões circulares é o momento de adotar como estratégia o uso de inseticidas químicos ou realizar o controle biológico.

É importante lembrar que quanto maior o número de aplicações de inseticidas em áreas de refúgio, menor sua efetividade como ferramenta de MRI. Por isso, é recomendável reduzir ao máximo o número de aplicações de inseticidas no refúgio, fazendo o controle de pragas na fase inicial da cultura, momento considerado crucial para seu estabelecimento.

RISCOS DA NÃO ADOÇÃO

O produtor que não adotar uma área de refúgio ou que fizer o manejo dessa área de maneira incorreta pode ser a primeira vítima do aumento da resistência de insetos e perder o controle das pragas-alvo em poucas safras.

A seleção de insetos resistentes às toxinas do Bt pode ser rápida em alguns casos. Portanto, a utilização da área de refúgio por todos é essencial para garantir a manutenção dos benefícios da tecnologia Bt. A sustentabilidade da tecnologia depende do manejo adequado de cada propriedade.

O monitoramento da lavoura também é fundamental e não pode ser negligenciado, inclusive para as consideradas pragas secundárias.