Agricultura de precisão

SENAR

Por Embrapa*

O esforço de modernização tecnológica que vem ocorrendo na agricultura brasileira desde os anos 1970 não só ampliou e concentrou a produção agropecuária como também alterou profundamente a “geografia da safra”. Estudos mostram que, entre 1975 e 2005, muitas regiões deixaram de figurar na lista de maiores produtoras de um dado item da pauta agrícola ou simplesmente deixaram de produzir esse item, porque foram superadas por outras regiões produtoras.

É o caso, por exemplo, do Estado de São Paulo que, em 1975, produziu 36,7% da safra nacional de algodão herbáceo e, em 2005, não chegou a 6,5% desse total. O estado foi superado pela elevada competitividade da lavoura no Mato Grosso que, nesses 30 anos, saltou de meros 0,77% para 45,9% da safra, na Bahia (de 4,9% para 22,4% da safra) e em Goiás (de 4,5% para 11,8%). Pela mesma razão, Rio de Janeiro e Espírito Santo simplesmente deixaram de produzir algodão em 1985.

O estudo, usando dados do IBGE, procurou analisar a dinâmica espacial de 35 produtos agrícolas, ou seja, como a produção desses bens se distribuía no território nacional em 1975 e como ela se deslocou nesse território nas três décadas que se seguiram. A lista de produtos incluiu desde o algodão (fibras) até a uva (frutas), passando por hortaliças e grãos como arroz, feijão, milho, soja, trigo, animais como a bovinos, suínos e aves e produtos de pecuária como leite e ovos.

Ele oferece tabelas e mapas. As tabelas informam, para cada produto, a área colhida, a quantidade produzida e a produtividade no país, em cada região, e nos estados, nos anos de 1975, 85, 95 e 2005, possibilitando ver onde cresceu e onde diminuiu a cada década. No caso de animais, mostra o efetivo dos rebanhos no país e nos estados e a contribuição percentual de cada estado para o rebanho nacional. Só por aí já é possível ver como a safra mudou, em alguns casos radicalmente, de mãos e de endereço.

O primeiro conjunto de mapas oferece, para cada produto, uma visão surpreendente e contundente sobre quem, dentre as regiões produtoras, está ganhando e quem está perdendo a competição em termos de eficiência e importância produtiva.

Para construí-los, os pesquisadores coletaram, para cada produto, a quantidade produzida em 1975 e em 2005, em cada uma das 558 microrregiões brasileiras, conforme definidas pelo IBGE, e as listaram na ordem decrescente, das mais importantes para as menos importantes, quanto ao volume de produção ou ao efetivo dos rebanhos.

Com isto obtiveram, para cada um dos 35 produtos, duas listas: a das microrregiões mais produtivas que respondiam por pelo menos 75% da safra nacional do produto em questão, em 1975, e a lista das que respondiam por pelo menos 75% da safra em 2005.

Para cada produto, o mapa permite ver então o que resultou da comparação entre as duas “fotografias” (a de 1975 e a de 2005) da geografia da safra. Ele mostra, em amarelo, as microrregiões que participavam dessa lista em 1975 e continuavam participando em 2005; em vermelho, as microrregiões que estavam na lista em 1975 e deixaram de participar dela e, em azul, as novas campeãs de produção naquele item, que passaram a fazer parte da lista.

Na quase totalidade dos casos, sair da lista (e receber a cor vermelha) não significa que a microrregião deixou de produzir aquele item, mas, sim, que foi superada por novas microrregiões produtoras que passaram a ter maior peso na sua produção. Os únicos casos de microrregiões que saíram da lista porque zeraram a produção aconteceram com o algodão arbóreo e herbáceo, no Nordeste e no Sudeste, por causa da praga do bicudo, e com a manga, no Pará.

Permanecer na lista (amarelo) ou passar a fazer parte dela (azul) significa que as microrregiões conseguiram tirar maior proveito da modernização tecnológica e passaram a ter maior peso na oferta de um dado produto agrícola.

O peso da produção e da oferta de um produto distribuído nas microrregiões permitiu aos pesquisadores estabelecer, com sofisticadas técnicas geodésicas, o “centro de gravidade” da produção de um alimento nos diferentes anos e gerar mapas que mostram como esse centro de gravidade foi mudando à medida que a importância do produto analisado muda de uma microrregião para outra.

É fácil ver como os centros de gravidade do algodão herbáceo e de bovinos mudam do Triângulo Mineiro para o Oeste de Goiás, à medida que Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Bahia passam a ter grande peso na produção desses bens, embora, no caso dos bovinos, Minas, São Paulo e os estados do Sul continuem a ser muito importantes. Pela mesma razão, o centro de gravidade da soja se desloca em linha reta do Sudoeste do Paraná para o Sudoeste de Goiás, marcando o caminho da cultura rumo ao Norte.

Fernando Luís Garagorry, líder da pesquisa, observa que onde se concentra a produção de qualquer fibra ou alimento e renda decorrente no futuro vão se concentrar problemas de sanidade, de logística de armazenagem e transporte, de desequilíbrios ambientais, bem como os problemas sociais decorrentes da exclusão de produtores e da migração não planejada.

Por isso, antecipar a dinâmica da safra, a direção da mudança dos centros de gravidade da produção e as alterações na geografia da produção, certamente ajudará os produtores e governantes a minimizar os conflitos do desenvolvimento rural.

Clique aqui e veja a nova geografia da safra.

 

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Por Equipe de Comunicação Digital • Postado em Seminários de Agricultura de Precisão • Tagged ,

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